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Entrevista com Monica Grin

As bolsistas-pesquisadoras do NIEJ, Beatriz Frenkel e Isabella Dias Gomes, com apoio do professor Bruno Leal, coordenador de mídias sociais do NIEJ, entrevistaram a historiadora Monica Grin, fundadora do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos e Árabes da UFRJ. Nesta conversa, Grin fala sobre sua trajetória no campo dos estudos judaicos, os desafios que a área enfrenta atualmente e suas perspectivas para o NIEJ.

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Monica Grin conversa com Beatriz Frenkel. NIEJ, JAN/2016.

Professora, nos fale um pouco, por favor, sobre a sua trajetória pessoal no campo dos estudos judaicos.

A minha trajetória na área de estudos judaicos se inicia com a descoberta de Hannah Arendt no início da minha graduação em História na PUC-RJ, no começo dos anos 1980. O encontro com Hannah Arendt se deu a partir de seus trabalhos mais históricos, especialmente As Origens do Totalitarismo, sobretudo a parte sobre Antissemitismo. Depois foi um pulo para a leitura de Eichman em Jerusalem, Rahel e seus Jewish Writings. A partir daí, comecei a me envolver com temas da área de estudos judaicos, especialmente o tema do Holocausto, e me dei conta que havia um mundo de questões altamente complexas e mobilizadoras e uma sofisticada historiografia nesse campo. Quando ingressei no mestrado em ciência política do IUPERJ (atual IESP), em 1987, continuei a desenvolver leituras sobre temas judaicos em franco diálogo com a tradição do pensamento político. Com uma bolsa da Fundação Ford que me foi concedida pelo professor Luis Eduardo Soares, à época finalizando sua tese de doutorado sobre Thomas Hobbes, fui estimulada a pensar as possíveis afinidades entre o pacto bíblico e o pacto hobbesiano presente no Leviatã.

Um certo pragmatismo sociológico me levou, entretanto, a elaborar um projeto de dissertação de mestrado no qual buscava articular questões teóricas à pesquisa histórica e empírica. Foi aí que resolvi estudar a Comunidade Judaica no Rio de Janeiro. Tal escolha me levou ao estudo de, tais como: imigração, insider/outsider, etnicidade, institucionalidade judaica desde uma perspectiva histórica, cultura política brasileira, estruturas comunitárias judaicas, como a kehilá, por exemplo, enfim, uma gama de questões e fenômenos relevantes para uma melhor compreensão das comunidades judaicas no Brasil. Meu campo de análise teve como objeto a comunidade judaica no Rio de Janeiro desde os anos de 1920 (a partir da chegada de levas significativas de imigrantes judeus ao Brasil) até a criação da Federação das Sociedades Israelitas do Rio de Janeiro, em 1946, no imediato pós-guerra. A minha hipótese era a de que a criação desta Federação significou o esvaziamento e despolitização de uma comunidade altamente diversa e que abrigava cadinhos de cultura política de cada contexto de onde partiam os judeus para se reinventarem no Brasil.

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Nesse trajeto constituí várias redes. Em Israel, fiz contato com o professor e cientista político, Daniel Elazar, especialista no tema do Pacto em suas diversas expressões, tanto no contexto da antiguidade, quanto no do mundo medieval e da modernidade, e com pesquisadores norte-americanos que tratavam temas judaicos, como Jeffrey Lesser, Nelson Vieira, Herbert Klein, sobretudo quando estive por uma ano na Brown University. Nesta universidade, valendo-me de sua riquíssima biblioteca, pude realizar leituras de autores como Martin Buber, Rosenzweig, Walter Benjamin, Gershom Scholem, Hannah Arendt, Michel Walzer, Mordechai Kaplan, Primo Levi, Salo Baron, Emmanuel Levinas, entre outros. Li muitos livros de referência na área de estudos judaicos e vejo hoje que todo o meu esforço naquele momento consistia em tornar legitimo, aos olhos das ciências sociais, em particular da ciência política, o campo mesmo dos estudos judaicos. Eu acreditava que dessa forma a minha pesquisa poderia trazer alguma contribuição para os debates mais amplos sobre cultura política, etnicidade política, tradição política, etc.

No Brasil, pude me valer de grandes interlocutores que me impunham um cuidado analítico raro. Meus grandes orientadores e interlocutores para essas articulações entre estudos judaicos e teoria política e sociológica foram: Bernardo Sorj, Bila Sorj, Wanderley Guilherme dos Santos, Ricardo Benzaquen, Renato Lessa, Luis Eduardo Soares e Marcos Chor Maio. Esse conjunto de intelectuais brasileiros me fez olhar para o campo dos estudos judaicos de maneira mais universal e menos paroquial, em perspectiva comparada, e me alertaram para que eu não caísse na zona de conforto das abordagens pautadas por ideologias, ou mesmo de assumir compromissos com a agenda da comunidade judaica. Esse aprendizado me acompanha até hoje.

Entretanto, esses grandes interlocutores que generosamente me ajudaram a refletir sobre pontes e diálogos entre as minhas questões e os temas nobres das ciências sociais, mostraram-me igualmente os limites da minha escolha temática, ou seja, alertaram para o pouco fôlego que os estudos judaicos naquela ocasião possuía no Brasil. Daí foi um pulo para mergulhar no tema da etnicidade, do multiculturalismo e do racismo no Brasil. Esses sim campos de estudos já consolidados no Brasil e altamente complexos, por todas as implicações políticas, sociológicas e ideológica que deles resultam.

Porém, não tardou para que o meu repertório na área de estudos judaicos retornasse e se insinuasse em meus estudos sobre negros e racismo no Brasil. O primeiro experimento ocorre em 2005 quando escrevo Modernidade, identidade e suicídio: o “judeu” Stefan Zweig e o “mulato” Eduardo de Oliveira e Oliveira, que saiu na Revista Topoi; depois Negros, Judeus e os Paradoxos da luta antirracista no Brasil Contemporâneo, publicado no Brasil e fora do Brasil. Mais recentemente tenho pesquisado o tema do ressentimento como virtude moral e como ato de protesto e, nesse caso, realizo também articulações entre experiências de sobreviventes do holocausto e experiências de negros no Brasil, vitimas de racismo extremo.

Quais as dificuldades de se estudar temas judaicos no Brasil, atualmente?

As dificuldades de estudar temas judaicos no Brasil são ainda muitas. Não há estímulo para que o aluno estude o hebraico e o Idiche; não há arquivos organizados, com exceção do Arquivo Histórico Judaico Brasileiro de São Paulo; não há bibliotecas de referência; há ainda a crença equivocada de que só judeus podem estudar judeus; há poucas redes internacionais.

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É claro que hoje buscamos enfrentar algumas dessas dificuldades, mas não tem sido fácil. Ainda assim, a experiência do NIEJ tem sido bem sucedida vis a vis a enorme precariedade dos estudos judaicos nas universidades brasileiras. É claro que grande parte desse esforço de manutenção do NIEJ, deve-se às ações de seus coordenadores, pesquisadores associados e alunos. Desde a sua criação, em 2009, o NIEJ está presente na graduação e na Pós-graduação em História da UFRJ; o NIEJ tem um blog, que acaba de ser totalmente reformulado, uma Revista Digital que lança agora o seu nono número, Jornada anual de estudos judaicos, com ênfase na participação de estudantes, laboratórios, cursos de extensão, já formou vários alunos de graduação, tem dois mestres, dois doutores, além de atuais quatro mestrandos e dois doutorandos.

Atualmente, Rio de Janeiro e São Paulo são os maiores polos de estudos judaicos no país, o que certamente tem a ver com o número de judeus nestes dois estados. Como a senhora você diferencia os estudos judaicos no Brasil e no mundo?

Os estudos judaicos no Rio de Janeiro nunca contaram com uma institucionalidade acadêmica que permitisse diálogos regulares, orientação, redes internacionais, pós-graduação, associações de estudos judaicos, etc. Entretanto, vários acadêmicos, tal como eu, desenvolveram seus estudos nesse campo em Programas de pós-graduação em diferentes áreas. Há vários trabalhos importantíssimos no Rio de Janeiro cuja temática judaica é tratada de maneira quase solitária. A pesquisa nessa área temática , é fruto ainda de enorme esforço individual que demanda quase sempre , o convencimento dos pares de que o campo de estudos judaicos é intelectual e academicamente legítimo. Bernardo Sorj, Bila Sork, Marcos Chor Maio, Katia Lerner, Michel Gherman, Bia Kushnir, Keila Grinberg, Flavio Limoncic, Rosana Bines, Fabio Koifman, Renata Rosenthal e Luis Edmundo Mendes, entre outros, fizeram e ainda fazem esse movimento de tornar plausível, legitimo e universal a reflexão em estudos judaicos frente ao público universitário.

Pode-se dizer que grande parte dos temas estudados no contexto acadêmico brasileiro, resultam da adoção de questões e tópicos tratados pela pesquisa em estudos judaicos presente nas universidades americanas. Alguns brasilianistas de origem judaica, quando pesquisavam algum questão da história do Brasil, especialmente história do Brasil contemporâneo, focavam suas lentes em questões como o antissemtismo no governo Vargas; judeus de esquerda, judeus e imigração, refugiados de guerra, etc., como parte significativa de seus estudos mais amplos sobre o Brasil republicano. Esse olhar norte-americano, interessado em questões étnicas e raciais acabou estimulando nossos olhares para esses mesmos eventos.

De um ponto de vista institucional, o Centro de Estudos Judaicos da USP, criado em 1969, foi pioneiro na tentativa de consolidar na universidade uma estrutura de ensino em graduação e em pós-graduação cujos temas em ensino e pesquisa abordassem questões relativas ao campo dos estudos judaicos. Com aporte financeiro da comunidade judaica de São Paulo, esse Centro realizou atividades importantes no campo de ensino da língua hebraica e de pesquisa sobre o tema da Inquisição no Brasil. Publicaram diversos trabalhos e formaram vários profissionais.

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Monica Grin conversa com Isabella Dias Gomes. NIEJ,JAN.2016

Uma breve comparação entre os estudos judaicos em São Paulo e no Rio de Janeiro, sugere que nas áreas de literatura, estudos bíblicos, estudos sobre inquisição e sobre religiosidade, a produção em São Paulo é bem mais significativa. Aqui, o Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos e Árabes da UFRJ vem construindo, desde 2009, com o apoio da própria universidade e de agências de fomento, um espaço de excelência para a formação acadêmica em níveis de graduação e pós-graduação, especialmente na área de história. O NIEJ oferece disciplinas eletivas sobre temas como Holocausto, conflito palestino-israelense e judeus no Brasil, uma vez ao ano, e laboratórios que valem créditos para estudantes da UFRJ sobre diversos temas, duas vezes ao ano. O ingresso de estudantes filiados ao NIEJ e com projetos na área de estudos judaicos no Programa de Pós-graduação em História Social, Programa conceito seis da Capes, tem sido não apenas numericamente significativo, como esses alunos entram nos primeiros lugares e quase todos conseguem bolsas de estudo.

Ao menos no Rio de Janeiro, na área de estudos judaicos, podemos já traçar um perfil do alunado que, entre outros, apresenta bom repertório teórico e realiza pesquisa histórica com enorme acuidade. O cuidado em não ser paroquial, parcial ou idealista, em não ser obsessivo em relação à presença do antissemitismo no Brasil, já é perceptível e faz toda a diferença no resultado das pesquisas.

Os estudos judaicos no Brasil em comparação ao que se realiza em outros contextos internacionais, ou seja, em centros universitários europeus, norte-americano e israelenses, pode-se dizer, ainda engatinha. Os centros norte-americanos, israelenses e europeus, fazem parte de redes poderosas que possuem aporte financeiro significativo e encontram-se em instituições acadêmicas muito prestigiosas. Possuem fortes Associações de estudos judaicos e produzem muito sobre temas os mais variados. Esses centros também tiveram uma trajetória de busca de legitimidade do campo frente aos departamentos na área de humanas já consolidados. Para que se tenha uma ideia, a Associação Americana de Estudos Judaicos só surge em 1969. De lá para cá é incrível como a área de estudos judaicos se consolidou no contexto universitário e acadêmico norte-americano. No Brasil, não temos associações e os centros de estudos judaicos pouco interagem, infelizmente.

Como a senhora enxerga o NIEJ no futuro?

Bem, eu desejo que ele cresça e abrigue cada vez mais e com maior critério os alunos interessados em enfrentar esse campo de conhecimento no Brasil. Que se torne uma instituição de referencia nacional e internacional; que possa criar importantes redes com instituições dentro e fora do Brasil; que possa ser um Núcleo que garanta visibilidade às pesquisas realizadas; que possa produzir sua Revista sem sobressaltos e em acordo com a normas que orientam as revistas acadêmicas no Brasil; que o NIEJ se torne um fórum de encontros, jornadas, workshops e que receba cada vez mais professores e pesquisadores, sobretudo de centros judaicos de fora do Brasil; que permaneça um núcleo independente de qualquer intervenção de natureza religiosa, política ou ideológica e que possa formar novas gerações de especialistas de excelência para dar continuidade a esse projeto de consolidar os estudos judaicos no Brasil.

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