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Receita do dia: quibe cru de carne síria

Murilo Bon Meihy | Professor do IH/UFRJ | Coordenador NIEJ/UFRJ

Às vezes, situações ridículas e desumanas precisam ser tratadas de forma irônica para que sejam mais dificilmente ignoradas por todos, como parece ser o caso das crises humanitárias no mundo contemporâneo. Nos últimos anos, o colapso vivido pelos refugiados após o início da guerra civil na Síria em 2011, tem sido tratado de maneira tão cínica e banal pela opinião pública internacional, que muitos analistas passaram a manter uma postura técnica e prosaica ao discutir o tema em suas tentativas de explicar as raízes dessa crise para o grande público.

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Para muitos comentaristas, jornalistas, e acadêmicos pretensamente envolvidos com o debate, as caraterísticas da crise dos refugiados sírios e o rol de soluções para esse conflito são descritos de forma tão banal quanto uma “receita de bolo”. Basta um ataque aéreo russo, a retomada de pontos estratégicos, o fortalecimento dos rebeldes não jihadistas, e a liberação de verbas para os países vizinhos, para que a fantástica confeitaria verborrágica dos nossos “especialistas” transforme o escândalo humanitário do momento em informação digerível ao público geral. A gastronomia parlapatória gourmet sobre a Síria precisa ter fim.

Mas se esse é o tratamento padrão do tema, proponho uma receita diferente para que seja servida ao público comensal que se interessa pela realidade grosseira de uma das maiores catástrofes humanas conhecidas: a destruição demográfica, cultural e econômica da população síria. Bem-vindos à cozinha maravilhosa do “o buraco é mais embaixo”, e o prato de hoje é o “quibe cru de carne síria”.

O passo a passo da receita é simples, e não requer prática, nem tampouco habilidade diplomática. As medidas são claras: 95% dos mais de 4 milhões de refugiados sírios vivem em condições desumanas em apenas cinco países: Líbano, Turquia, Jordânia, Egito e Iraque. Sim, respeitável público, a condição de sobrevivência dos sírios em seu próprio território é tão perversa, que o Iraque se transformou em uma opção viável para refúgio. Esse “tempero exótico” do deslocamento das vítimas do conflito tem sabor amargo. O “problema dos refugiados” vivido pela Europa é uma pitada ridícula dessa condimentada realidade. O gosto acre do envolvimento da União Europeia na crise síria tem notas de omissão, racismo e menosprezo. Argumentos como os de que entre os refugiados sírios que desejam viver na Europa estão terroristas infiltrados é patético, e pode ser bem respondido pela constatação de que os envolvidos em atentados terroristas recentes em território europeu agiam em nome do Estado Islâmico, mas portavam cidadania europeia. Dos nove terroristas envolvidos no ataque à Paris em 13 de novembro de 2015, suspeita-se que somente Ahmad Al-Mohammad era cidadão sírio nato, porém, não há comprovações sobre sua identidade e origem. A Bélgica e a França não precisam se preocupar com jihadistas entre os refugiados. A Europa foi capaz de produzir radicais religiosos entre seus próprios cidadãos ao segregar gerações de jovens vindos de culturas destroçadas pela experiência colonial: o sal da terra.

A versão libanesa da receita de “quibe cru de carne síria” é uma explosão de sabores. A presença de um contingente cada vez maior de cidadãos sírios deslocados pelo território libanês é um fato difícil de engolir. Todos sabem que o segredo de uma boa prática da culinária internacionalista é a exatidão nas quantidades e medidas de cada ingrediente/informação, mas, no caso libanês, a receita desandou. Os registros oficiais falam em mais de 1 milhão de refugiados sírios no Líbano, o que já representaria 20% da população total do país, sem a contagem evidente de deslocados sírios que seguem entrando diariamente no país sem autorização das autoridades locais. Somado aos refugiados palestinos, presentes no país desde o conflito árabe-israelense de 1948, a sociedade civil do Líbano é formada atualmente por um grande número de estrangeiros sem direitos sociais básicos como emprego e saúde, e que vive com menos de 6 dólares por dia.

Quem dá o toque final nessa receita é o Estado libanês: frágil, oligarca e despreparado. De modo geral, em praticamente todo o país, a atuação do Estado é cada vez mais dependente de medidas de segurança para a manutenção de sua delicada estabilidade. Ao invés de atuar por meio de ações sociais que reforcem sua presença, ganhando o reconhecimento dos próprios cidadãos libaneses e dos refugiados, o establishment libanês prefere concentrar-se no combate a distúrbios, e não na possibilidade de evitá-los. Para os analistas e acadêmicos gourmets, a base da culinária política do Líbano é sempre a mesma: xícaras e mais xícaras de sectarismo.

Já que “quem tem fome, tem pressa”, nada melhor do que ditar ao público os ingredientes da receita libanesa: corrosão econômica, transbordamento do conflito sírio para o seu próprio território, e a ação de um Estado mais negligente do que sectário. Além disso, tem o segredo do chef: com uma agenda intrinsecamente relacionada às questões de segurança, a instituição mais forte e reconhecida do país passa a ser as Forças Armadas, ao invés do Estado. Já deu para imaginar o efeito disso em longo prazo?

No final, a panela de pressão está preparada, e a História reivindica seu lugar como o segredo da receita: A Europa retrocede com sua antiga prática de descaso com a política do Oriente Médio; o Líbano (como representante dos países vizinhos ao conflito) repete o erro histórico de isolar e segregar os refugiados que abriga; e para os comentaristas midiáticos e jornalistas, o prato já pode ser servido, pois “a carne mais barata do mercado” é a carne síria. Quanto mais mal passada, melhor.

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