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Israel Otomano

Por Monique Sochaczewski

Israel pode ser também um país incrível. Tem universidades de ponta, museus de primeira linha, escritores maravilhosos, gastronomia deliciosa, cinema dos mais originais, assim como séries, música e dança. Tem muita história, ruínas, shuks, hi-tech e livrarias. E que cidades! A minha preferida é Tel-Aviv: super divertida com seus prédios horrorosos, noite animada, vida cultural e intelectual de primeira, e praia quase tão linda quanto as do Rio.

Tel-Aviv é também conhecida como “a bolha”, ou “Estado de Tel-Aviv”, por quase que viver em negação da realidade complicada de Israel. Quão simples seria pensar só nos aspectos positivos – que existem e também merecem atenção – se não houvesse a ocupação dos territórios palestinos; se não houvesse 20% da população, que é árabe, cheia de sérias questões a se resolver; se não houvesse todos os judeus de origem oriental (mizrahim) demandando reconhecimento e direitos; se não houvesse todo o trauma do Holocausto e os usos que se faz dele; se não houvesse um crescimento vertiginoso de judeus ultra-ortodoxos e toda uma mudança na demografia e na religiosidade do país; se não houvesse o drama dos asilum seekers desesperados da África; e se não se inserisse em uma região em franca alteração de alianças e aparentemente de poderes. Isso sem falar, obviamente, no “Estado Islâmico” já presente na Península do Sinai e do Hizballah que volta para o sul do Líbano com muita experiência de combate na Síria.

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Ocorre, porém, que nada é simples por ali. Por ter ali morado cinco anos, visitar regularmente o país e acompanhar diariamente mídias de vários vieses locais, bem posso dizer. E o mega desafio é como apresentar isso tudo em sala de aula, de maneira fair e clara. Foi um pouco visando me atualizar a esse respeito que acabei passando quatro semanas entre junho e julho últimos, entre Massachusetts e Israel, no Summer Institute for Israel Studies. Trata-se de uma iniciativa existente desde 2004, idealizada e tocada pela Brandeis University, em que por duas semanas palestrantes de ponta procuram apresentar as narrativas israelense e palestina, ainda no campus da universidade, e que em outras duas semanas, ainda se assiste palestras aqui e ali, mas principalmente se visita lugares e se fala com pessoas sobre a coisa toda. Circulamos por Jerusalém, Beer Sheva e Tel Aviv, mas também por Ramala, Rawabi, Rahat e Kfar Kassem (as duas primeiras cidades palestinas e as duas últimas cidades árabes em Israel), ouvindo e perguntando muito para parlamentares, juristas, ativistas, religiosos, escritores, militares, jornalistas e acadêmicos. Uma oportunidade de ouro para quem está disposto a mergulhar nas batalhas de narrativas tão fortes nessa região. Bem difícil também.

Meu interesse no curso, além de me atualizar e de validar coisas que já andava fazendo ou planejando fazer, foi o de me inteirar melhor de questões de segurança e defesa. Confesso estar em especial interessada no papel de combate das mulheres nas Forças de Defesa de Israel, em como Israel vê a UNIFIL, e em suas experiências com contraterrorismo e com cyberdefesa. A experiência foi muito útil em todos esses sentidos, mas a verdade é, com perdão da expressão, que atirei no que vi e acertei no que não vi.

Mirei no hoje e acertei no ontem. Na realidade, nunca tinha me dado conta, confesso, do quão presente é o passado otomano em Israel. Talvez mais do que na Turquia, que foi o núcleo duro desse império, mas que buscou se afastar dele com muita sofreguidão em boa parte de seus anos como república. Já Israel não tem Constituição e provavelmente nunca terá. Assim, o país baseia-se em leis otomanas, leis do Mandato Britânico e as chamadas Leis Básicas.

O que é mais interessante é que Israel ainda mantém, por exemplo, o sistema de Millet otomano. Por esse sistema comunidades étnico-religiosas mantém autonomia em que seus juízes aplicam as leis religiosas e de costumes, mantendo exclusividade de jurisdição em questões como de casamento, divórcio, e legitimidade de filhos. Há então os millets dos judeus, dos muçulmanos, dos cristãos e dos drusos, cada qual só podendo se casar de acordo com suas leis religiosas. Casamento civil não existe no país e não raro os israelenses voam para o Chipre ou para a Toscana para contrair matrimônio dessa forma.

Entre os cristãos há nove denominações, como os coptas, os siríacos, os armênios, os ortodoxos gregos, os franciscanos, os etíopes e os anglicanos. É interessantíssimo tentar acompanhar essa complexidade cristã na Cidade Velha de Jerusalém, num bom e velho walking tour, do qual sou tão grande fã e praticante entusiasta por essas bandas. E se for na companhia de Hana Bendowsky então – diretora de programa do Jerusalem Center for Jewish-Christian Relations -, tanto melhor. A moça sabe tudo dessa complexidade toda.

Na Igreja do Santo Sepulcro, por exemplo, é um verdadeiro milagre que não haja um conflito diário entre as denominações cristãs que ali tem espaço. Ali, porém, rege o chamado “Status Quo”, promulgado em 1852 pelo sultão Abdul-Medjid (r. 1839-1861) e congelando as condições existentes então. Trata-se de um entendimento entre as comunidades religiosas sobre relações, atividades e movimentos realizados em partes da igreja compartilhadas por várias denominações. Parece inacreditável, mas esse se mantem até os dias atuais como única referência para solucionar litígios e disputas. As três principais comunidades nessa igreja – os gregos, os armênios e os franciscanos – organizam suas procissões, cânticos e uso de instrumentos musicais (no caso, os franciscanos com o órgão) de modo a não se esbarrarem. Buscam ainda entendimento sobre restauro da igreja, dos banheiros e coisas do gênero. É um cacofonia e há disputas abertas, mas sabe-se lá como, a coisa tem funcionado.

***

Enfim, o presente otomano de Israel é só um exemplo, entre muitos, da complexidade do país. Um dos palestrantes que esteve conosco tanto nos EUA como em Israel, o professor Elie Rekhess, da Northwestern University, o tempo todo frisava da necessidade de termos em mente ao lecionarmos sobre Israel justamente a “c word”, que era “complexity”. Parece meio óbvio, mas é sempre bom frisar, ainda mais sobre tema que muitos acham saber muito. E eu sempre acho que de tempos em tempos tem que se ir lá ao campo, ver, andar, falar, e perguntar. E ao voltar para casa, ter a humildade de que é difícil para burro ensinar sobre o tema, mas extremamente necessário. Desejem-me sorte!

Monique Sochaczewski é doutora em História, Política e Bens Culturais pela FGV e autora do livro “Do Rio de Janeiro a Istambul: contrastes e conexões entre o Brasil e o Império Otomano (1850-1917)” (Brasilia: FUNAG, 2017)

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